UM RESUMO RÁPIDO DAS PRINCIPAIS NOVIDADES DO CONGRESSO EUROPEU DE UTI

Nos últimos dias 4 a 6 de outubro de 2016, foi realizado em Milão o Congresso da Sociedade Europeia de Terapia Intensiva. Como já é de praxe nesses eventos nos últimos anos, as sessões mais esperadas são as sessões de Hot topics, onde são apresentados em primeira mão os resultados dos últimos estudos publicados em terapia intensiva.

Esse ano, como não poderia ser diferente, os resultados de diversos estudos foram apresentados e publicados ao mesmo tempo em revistas de enorme prestigio internacional como o JAMA e o New England Journal of Medicine.

Entre os principais papers apresentados e publicados, destacamos o estudos LEOPARDS. O LEOPARDS (http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1609409) foi um estudo multicêntrico europeu que avaliou o papel da utilização de levosimendan para prevenção de disfunção orgânica em pacientes com choque séptico. A droga do estudo foi iniciada mais tardiamente (em media 16 horas apos diagnostico de choque séptico) e, por esse motivo, ou não, o estudo foi negativo em termos de evolução da disfunção orgânica e o levosimendan associou-se a maior dificuldade de desmame e maior incidência de arritmias supreventriculares.  Ou seja, melhorar tardiamente a oferta tecidual de oxigênio por um inotrópico nao se mostrou benéfico, exatamente como os estudos de Gatinnoni e Hayes tinham demonstrado em 1994 e 1995.

Ainda discutindo oferta tecidual de oxigênio, um estudo publicado no JAMA chamado Oxygen-ICU trial (http://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2565306) demonstrou que a manutenção de pressões parciais de oxigênio mais baixas em pacientes críticos (por volta de 85-90 mmHg na gasometria diária) associava-se a efeitos mais benéficos como redução da mortalidade, menos episódios de bacteremia, choque e disfunção hepática. Um dado interessante é que, nesse estudo, mesmo concentrações de oxigênio por volta de 50%, outrora consideradas “seguras”, associaram-se com efeitos deletérios.

Esses dois estudos vem se somar a outros previamente publicados que mostram que cada vez mais vale aquele conceito de “less is more” para UTI.  Menos sedação, menos transfusão, menos inotrópicos, menos vasopressores, menos oxigênio, monitorização menos invasiva, menos imobilismo, menos fluidos, menos corticoides, ou seja, cada vez mais está claro que nossas intervenções prévias, por serem muito invasivas, eram prejudiciais aos pacientes.

Outro estudo que foi divulgado foi o estudo HYPRESS . O HYPRESS avaliou o uso de corticoide em pacientes com sepse mas sem choque séptico (http://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2565176). Na verdade o objetivo primário do uso de corticoide seria diminuir a incidência de choque séptico em ate 14 dias. O desenvovimento de choque séptico foi similar nos dois grupos (22%), ou seja, não houve beneficio do uso de corticoide  nesses pacientes, devendo o corticoide ser reservado para aqueles pacientes com choque séptico e doses crescentes de vasopressores.

Um estudo adicional que foi apresentado e publicado diz respeito à comparação entre ventilação não invasiva e cateter nasal de alto fluxo de oxigênio na prevenção de reentubação apos extubação de pacientes em ventilação mecânica. O estudo foi incapaz de demonstrar superioridade de uma técnica sobre outra, não obstante o fato de que o cateter nasal de alto fluxo é em geral melhor tolerado que a ventilação não-invasiva. Assim, o cateter nasal de alto fluxo pode ser uma alternativa válida para utilização na prevenção de reentubação ou insuficiência respiratória pós-extubação.

Todas as apresentações dos artigos no congresso estão disponíveis gratuitamente no site da ESICM em http://www.esicm.org/news-article/hot-topics-full-presentations . Bom estudo a todos.

esicm-lives

Luciano Azevedo

Professor Colaborador da Disciplina de Emergências Clínicas da FMUSP Médico Assistente da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas da FMUSP Coordenador Geral do Curso de Atualização em Medicina Intensiva – Abordagem Baseada em Evidências, Disciplina de Emergências Clínicas da FMUSP Orientador da Pós-Graduação (Doutorado) da FMUSP Médico da UTI do Hospital Sírio-Libanês e Coordenador do Laboratório de Pesquisa em Medicina Intensiva do Hospital Sírio-Libanês Instrutor do Programa FCCS da AMIB

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *