Paciente Frágil na UTI – Um Novo Conceito

Fragilidade é um termo amplamente usado para descrever uma síndrome multidimensional caracterizada pela perda de reservas fisiológicas e cognitivas que dá origem à vulnerabilidade aumentada a eventos adversos. Eventos adversos associados com fragilidade incluem quedas, suscetibilidade à doença aguda, complicações perioperatórias, internações hospitalares não planejadas, incapacitação, necessidade de cuidados institucionais e óbito. A fragilidade tem implicações substanciais na qualidade de vida, na autonomia funcional e na utilização dos serviços de saúde; contudo, este último aspecto nunca tinha sido avaliado em pacientes criticamente enfermos.

O desenvolvimento de uma doença grave pode levar à fragilidade em pacientes vulneráveis. A doença crítica também pode ser um fator-chave impedindo a recuperação e a autonomia funcional naqueles já considerados frágeis. É possível que a fragilidade identifique os pacientes vulneráveis, que são menos propensos a tolerar a doença crítica, mais suscetíveis a complicações e à morte, e menos predispostos a se recuperar totalmente após a doença crítica a curto ou longo prazo. No círculo vicioso da fragilidade associada à doença crítica, encontram-se a sarcopenia, a reserva funcional diminuída e a desnutrição, que contribuem para eventuais desfechos desfavoráveis.

Para tentar identificar a prevalência de fragilidade na UTI, Bagshaw et al. realizaram um estudo com 421 pacientes críticos canadenses com mais de 50 anos de idade, no qual foram investigados as características de fragilidade pelo escore clínico de fragilidade (disponível em: www.cmaj.ca/lookup/suppl/doi:10.1503/cmaj.130639/-/DC1), o uso de recursos de UTI, a capacidade funcional e os desfechos a longo prazo.

Os autores encontraram uma prevalência de fragilidade de 32,8%. Os pacientes mais frágeis eram mais velhos, tinham mais comorbidades e maior dependência funcional em relação àqueles não frágeis. A mortalidade hospitalar e a mortalidade em 1 ano foram maiores nos pacientes frágeis. Esses pacientes também apresentavam maior tendência à dependência funcional e baixa qualidade de vida após a UTI, assim como maior chance de readmissão hospitalar. As limitações do estudo incluíram: a subjetividade do questionário empregado, a ausência de mensurações de marcadores de força muscular e de inflamação mais objetivos e o fato de que os autores não conseguiram separar o impacto da doença crítica da vulnerabilidade do paciente, o que seria importante para avaliar a carga da doença crítica isoladamente nesse contexto.

Em resumo, esse estudo identifica, pelos critérios de fragilidade, uma subpopulação de pacientes críticos mais suscetível a eventos adversos, o uso de recursos de saúde e os piores desfechos. Assim sendo, esse grupo de pacientes pode ser candidato a programas interdisciplinares de cuidado e reabilitação precoces visando reduzir sua morbimortalidade.
Para acessar o trabalho completo, use o seguinte link: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3903764/pdf/1860e95.pdf

Quer ler mais sobre fragilidade na doença crítica?: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3222010/pdf/cc9297.pdf

Quer saber mais sobre a doença crítica e suas consequências? Assista às aulas do 11° Curso Nacional de Atualização em Terapia Intensiva, elaborado por médicos da UTI do HC-FMUSP: http://manoleeducacao.com.br/terapiaintensiva

Luciano Azevedo

Professor Colaborador da Disciplina de Emergências Clínicas da FMUSP Médico Assistente da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas da FMUSP Coordenador Geral do Curso de Atualização em Medicina Intensiva – Abordagem Baseada em Evidências, Disciplina de Emergências Clínicas da FMUSP Orientador da Pós-Graduação (Doutorado) da FMUSP Médico da UTI do Hospital Sírio-Libanês e Coordenador do Laboratório de Pesquisa em Medicina Intensiva do Hospital Sírio-Libanês Instrutor do Programa FCCS da AMIB

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *