É Seguro passar Marcapasso Transvenoso Guiado por Ultrassom?

Ana Carolina Neves de Carvalho

Alexandre de Matos Soeiro

Tatiana de Carvalho Andreucci Torres Leal

Leonardo Jorge Cordeiro de Paula

Múcio Tavares de Oliveira Jr.

Estudo publicado recentemente comparou a utilização de ultrassom (USG) versus fluoroscopia na passagem de marcapasso transvenoso (MPTV). Trata-se de estudo prospectivo, observacional, unicêntrico e não randomizado, com objetivo de avaliar se o USG é uma alternativa válida para reduzir as complicações da passagem do MPTV e o tempo em que o paciente permanece em ritmo bradicardico.

A decisão do método utilizado foi realizada pelo médico assistente do caso. Para realização do USG foram destinados 3 cardiologistas com experiência em unidades intensivas cardiológicas com pelo menos 2 anos de experiência na área e com experiência de colocação de 10 MPTV guiados por USG previamente e para fluoroscopia foram 4 cardiologistas intervencionistas com pelo menos 5 anos de experiência na área e implante prévio de, no mínimo, 20 MPTV.

A passagem de MPTV por USG foi realizada por veia jugular interna e por veia femoral no caso da fluoroscopia. O posicionamento do eletrodo bipolar do cateter de MPTV no ápice do ventrículo direito foi realizada sob visualização direta contínua do cateter por USG. Os endpoints de segurança foram: infecção (aumento em 50% de leucócitos, febre), sepse, hematoma > ou igual a 5 cm, perfuração cardíaca, pneumotórax, taquiarritmias, mau funcionamento com necessidade de reposicionamento, trombose venosa, óbito e atraso no implante de marcapasso definitivo maior que 48 horas. Já quanto à eficácia, foram: procedimento realizado com sucesso, tempo entre a decisão e a checagem da posição do marcapasso e tempo de realização do implante. As características basais da população estão na figura 1.

Figura 1

Figura 1. Características basais da população estudada.

Como resultado, observou-se maior número de complicações no grupo que realizou a passagem por fluoroscopia. Os resultados podem ser observados na figura 2.

Figura 2

Figura 2. Resultados do estudo comparando os grupos USG e fluoroscopia.

Os autores concluem que a passagem de MPTV guiado por USG no cenário de emergência é viável, segura e preferível para pacientes sem indicação de revascularização na urgência. O acesso pela veia jugular interna deve ser preferível sempre que possível.

Comentários:

– Trata-se do maior estudo comparando eficácia e segurança do uso de USG para guiar MPTV em cenário de emergência.

– Foi mostrado que a passagem guiada por USG por médicos capacitados é viável e reduz o tempo de procedimento.

– A passagem guiada por USG tem menor taxa de complicação do que a passagem “às cegas”.

– A passagem por fluoroscopia teve as mesmas taxas de complicação já vistas na literatura e a passagem guiada por USG teve taxas ainda menores (menos infecção, complicações relacionadas ao acesso).

– Acredita-se que a passagem guiada por USG deve tornar-se o método de eleição em pacientes sem outra indicação de cateterismo de emergência.

– A ampliação da implementação deste método tem o potencial de expandir o implante de MPTV com menos taxas de complicações fora do cenário Intensivo Cardiológico.

– A principal limitação é a alocação não randomizada da escolha do método de implante, baseada na clínica da entrada e experiência do médico da admissão.

– O grupo de médicos que realizou o procedimento guiado por USG era mais jovem (idade média 32 X 43) e com menor experiência. Logo, as diferenças de resultados entre os dois grupos não se devem a diferença na experiência do médico e sim na diferença entre os procedimentos.

Referência: Ferri LA, et al. Emergent transvenous cardiac pacing using ultrasound guidance: a prospective study versus the standard fluoroscopy-guided procedure. Eur Heart J Acute Cardiovasc Care. 2016 Apr;5(2):125-9. 

 

Alexandre de Matos Soeiro

• Médico Assistente e Supervisor da Unidade Clínica de Emergência - InCor (HCFMUSP). • Coordenador do Curso Nacional em Emergências Cardiológicas • Médico Assistente Homenageado pelas Turmas de 2012 a 2014, 2013 a 2015, 2014 a 2016, 2015 a 2017 e 2016 a 2018 de Residentes/Estagiários do InCor-HCFMUSP. • Vencedor do Prêmio Jovem Investigador - Josef Feher do Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo em 2015 • Coordenador da Liga de Emergências Cardiovasculares do InCor - HCFMUSP. • Professor Convidado de Graduação do Terceiro, Quarto e Sexto Anos da FMUSP. • Preceptor homenageado pela Turma 94 de graduação da FMUSP • Médico Preceptor em Cardiologia - InCor - HCFMUSP - 2011. • Especialista em Medicina de Emergência pela ABRAMEDE. • Especialista em Cardiologia pela SBC. • Residência Médica em Cardiologia - InCor - HCFMUSP. • Especialista em Clínica Médica pela SBCM. • Residência em Clínica Médica - HCFMUSP. • Graduação em Medicina pela FMUSP. • Instrutor Ativo de Cursos de ACLS - LTSEC - InCor - HCFMUSP. • Instrutor Ativo de Cursos SAVICO (Suporte Avançado de Vida em Insuficiência Coronária) e SAVIC

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