SEPSE COMO IMPORTANTE CAUSA DE MORTE NO BRASIL

Taniguchi LU, Bierrenbach AL, Toscano CM, Schettino GP, Azevedo LC. Sepsis-related deaths in Brazil: an analysis of the national mortality registry from 2002 to 2010. Crit Care 2014; 18(6):608.

Luciano Azevedo
Médico da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Disciplina Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).
Médico da UTI da Disciplina Anestesiologia e Medicina Intensiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp).
Pesquisador do Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa.
Vice-presidente do Instituto Latino-Americano de Sepse.

A sepse é uma patologia associada a substanciais encargos sociais e econômicos nos serviços de saúde de todo o mundo, com índices de mortalidade relatados que variam de 29 a 60% e com aumento da sua incidência nas últimas décadas. Apesar desses dados preocupantes, há informações limitadas sobre a epidemiologia da sepse, particularmente para a sua mortalidade nos países em desenvolvimento. A fim de avaliar a contribuição da sepse para todas as causas de mortalidade no Brasil, Taniguchi et al. estudaram todas as certidões de óbito do país entre 2002 e 2010, usando dados do Sistema Nacional de Informação da Mortalidade.

Nosso objetivo foi avaliar as tendências e fornecer estimativas populacionais do número de mortes relacionadas à sepse durante esse período. Foram considerados óbitos relacionados à sepse todas as mortes com código CID- 10 indicativo de sepse no atestado de óbito, além de mortes possivelmente relacionadas com sepse grave todas aquelas com códigos relacionados a infecção e disfunção de órgãos no certificado. Os principais resultados do estudo demonstram que, no Brasil, o número de mortes no qual sepse foi um fator contribuinte importante aumentou de 10% do total de óbitos em 2002 para 17% em 2010. Além disso, o número de mortes possivelmente relacionadas à sepse (infecção + disfunção de órgãos) aumentou de 16% em 2002 para 21% em 2010. A taxa ajustada por idade de mortalidade associada à sepse aumentou de 69,5 mortes por 100 mil para 97,8 mortes por 100.000 habitantes de 2002 a 2010. A mortalidade associada à sepse foi maior em indivíduos mais velhos e do sexo masculino.

Apesar deste estudo mostrar pela primeira vez a importância da sepse como causa significativa de mortalidade em um país em desenvolvimento importante como o Brasil, existem limitações substanciais para esses dados que devem ser reconhecidas. Primeiro, o registro de casos de sepse em bancos de dados administrativos é geralmente reconhecido como subestimado, em razão da falta de códigos específicos para a síndrome. Se tal for verdade, no presente estudo, a carga da sepse como causa contribuinte de mortalidade é ainda maior do que é aqui demonstrada. Em segundo lugar, é possível que o aumento do número de mortes relacionadas com sepse seja muito mais representativo do aumento do número de notificações da doença pelo maior conhecimento progressivo da importância da sepse. Em certa medida, é possível que essa suposição seja verdadeira, no entanto, o número de mortes relacionadas com códigos de infecção (com ou sem falência de órgãos) também aumentou substancialmente no Brasil no mesmo intervalo de tempo, o que sugere que a contribuição das doenças infecciosas para a mortalidade está crescendo. Outra limitação está relacionada ao fato de que esses resultados são derivados de dados administrativos que contêm, portanto, poucas informações sobre a gravidade da doença ou comorbidades.

Em conclusão, o estudo mostra, do ponto de vista populacional, a importância de sepse para todas as causas de mortalidade entre 2002 e 2010 no Brasil. As taxas de mortalidade ajustadas por idade por sepse também aumentaram na última década. Nossos resultados confirmam a importância da sepse como uma questão de saúde significativa no Brasil e que demanda o estabelecimento de políticas de saúde para reconhecimento precoce e tratamento adequado.

Luciano Azevedo

Professor Colaborador da Disciplina de Emergências Clínicas da FMUSP Médico Assistente da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital das Clínicas da FMUSP Coordenador Geral do Curso de Atualização em Medicina Intensiva – Abordagem Baseada em Evidências, Disciplina de Emergências Clínicas da FMUSP Orientador da Pós-Graduação (Doutorado) da FMUSP Médico da UTI do Hospital Sírio-Libanês e Coordenador do Laboratório de Pesquisa em Medicina Intensiva do Hospital Sírio-Libanês Instrutor do Programa FCCS da AMIB

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